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quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O Deus das Pequenas Coisas

Para finalizar a série Meus Dez Livros Preferidos, O Deus das Pequenas Coisas, livro de estréia da roteirista, ativista e escritora indiana Arundathy Roy.

A delícia de ler esse livro começa pelo título. Raramente se pode julgar um livro pela capa, ou pelo título, mas tenho um apego especial pelos títulos. Minha vontade de ler um livro passa pelo título, e também pela capa. Hoje em dia, com tantas mídias brigando por nossa atenção, tenho que dar o mérito a todos os produtores editoriais e designers que tornam o prazer de ler um bom livro ainda maior: elaborando a programação visual atrativa para nós, leitores, saborearmos.

Depois, o prazer de ler o livro só acaba mesmo com o fim dele. E mesmo assim, ainda fica aquele suspiro final, quando a autora, numa sacada de mestre, termina a história profundamente triste com um capítulo belíssimo, narrando uma cena de amor como eu raramente vejo ser contada: pura prosa poética...Ou seja, o livro é permeado de flashes, e a narrativa não é linear, com idas e vindas pela história.

O Deus das Pequenas Coisas se passa na Índia, e conta a história de como a vida de duas crianças, irmãos e gêmeos, é alterada drasticamente, e definida pela força de pequenos acontecimentos presentes e passados. Uma simples decisão, uma partida, uma carta escrita, a visita de uma prima, palavras e mal pensadas ditas do outro lado de uma porta, coisas que parecem insignificantes, mas influenciam com grande peso os acontecimentos da vida, fazem com que os pequenos Rahel e Estha sejam atirados ao destino.

Além de uma bela história, O Deus das Pequenas Coisas nos deleita com uma literatura permeada de poesia, cenas singelas, que parecem terem sido retiradas com um pincel da mente de uma criança...

Arundathy Roy nos apresenta, apaixonadamente, as leis do amor, que determinam quem deve ser amado... e como... e quanto.

" - Rahel, você sabe o que acontece quando magoa alguém? Essa pessoa passa a gostar de você um pouco menos."



segunda-feira, 31 de maio de 2010

Dom Casmurro


Estou adiando essa resenha... Falar de Machado de Assis é uma puta responsa...

Afeee(respirando fundo).

Por onde eu começo?

Talvez algumas pessoas achem difícil se apaixonarem pela história de Bentinho, por que, fundamentalmente, a narrativa é destituída de emoção. Essa é umas das características do Realismo do século XIX, o caráter racional e analítico das situações que tanto encanta em Machado de Assis, e as constantes saídas da história para incrementos filosóficos pontuam o mais celebrado romance do autor.

Porém,  Dom Casmurro é uma história de paixão e de loucura.A paixão de Bentinho pela épica heroína da literatura brasileira: Capitu.

Vamos à história!

Bentinho está destinado por uma promessa de sua mãe a ser padre. Porém, o arranjo não satisfaz o garoto, tudo por que sua vizinha de muro, a esperta e faceira Capitu, está tirando o rapaz do sério. Aliando-se a José Dias, o fiel agregado da família, e à namorada, arquitetam secretamente o seu plano de fuga.

Mesmo assim o moço vai para o seminário, onde acaba conhecendo seu grande amigo, Escobar. Mas como nenhum dos dois demonstra talento para a carreira eclesiástica, acabam saindo e suas vidas parecem seguir o roteiro normal, Bentinho casa-se com sua amada, Escobar casa-se também, e os dois casais são amigos e inseparáveis.

A vida de Bentinho é feliz, com a mulher que ele amou desde menino. Só uma dificuldade para terem filhos parece turbar a calmaria de seus dias. Até que Capitu finalmente engravida, e colocam o nome de Ezequiel no menino, que é o primeiro nome de Escobar, para uma homenagem.

Porém, à medida que o menino cresce, Bentinho começa a se incomodar com a semelhança do filho com o melhor amigo. Estimulado pelo ciúme que tem da mulher e pelas lembranças da moça quando criança, sempre muito à frente de seu tempo, a suspeita vira certeza quando Escobar morre afogado, e os "olhos de ressaca" de Capitu a denunciam, no momento do velório do possível amante.

Bentinho pensa em suicidar-se, em matar o filho, enfim, sempre a loucura do personagem principal. Porém a loucura não chega a vencer sua fraqueza, e o arranjo ideal é despachar a esposa com o filho para a Europa.

A incerteza da traição de Capitu é o ponto alto da trama. E a amargura de Bentinho por toda a vida, o desfecho inevitável.

Ano passado, a Globo produziu uma minissérie num formato inovador, entitulada Capitu. É uma produção bem cuidada que arrematou alguns importantes prêmios, inclusive internacionais, e primou pela poesia e beleza da fotografia, trilha sonora e figurinos. A protagonista foi representada pela deslumbrante Maria Fernanda Cândido e Bentinho é o novatinho cool da tv, Michel Melamed. Porém, para quem não conhece esse importante capítulo da Literatura Brasileira, é possível que a minissérie não seja um retrato muito esclarecedor sobre a genialidade de Machado de Assis. Repito: a coisa mais gostosa do livro é perceber que o autor "sabota" sua narrativa o tempo todo, roubando do leitor a surpresa, a emoção, quase nos convidando a penetrar na sua "casmurrice". Por outro lado a minissérie conta a história usando o artifício oposto: a fantasia e a emoção da linguagem teatral, do cinema mudo e da ópera...

Mais uma vez, muito bom dividir com vocês um dos meus dez livros preferidos!

sábado, 24 de abril de 2010

Alice nos persegue...



Então, acabei de reler pela ducentésima vez Alice no País das Maravilhas... se você não conhece a obra e está no frisson do filme, procure o original em inglês, pois vários dos enigmas, piadas e trocadilhos que enriquecem a obra e tornam o conto um clássico inesquecível, só fazem sentido na língua original, e mesmo assim, existem tantas referências da época que é possível perder muita coisa sem uma análise mais profunda.

O curioso autor, Charles Lutwidge Dodgson, mais conhecido pelo pseudônimo de Lewis Carroll, se dedicou à Geometria e à Àlgebra, até enveredar pelos caminhos da Literatura e Fotografia, onde revelou toda a sua - senão paixão - quedinha especial por crianças, especialmente menininhas, que ele fotografava nuas. Isso, hoje em dia, seria chamado, geralmente, de pedofilia, mas tudo bem, Carroll é desses gênios dados à esquisitices.

Seu Alice in Wonderland alcançou tal fama e prestígio, tornando-se um dos preferidos da rainha Vitória.

Hoje, sendo um clássico da literatura universal, acabou de ganhar uma versão cinematográfica do também genial Tim Burton, que já bateu recordes de bilheteria na sua estréia nos EUA. A história e uma adaptação do original, e mistura outro conto de Carroll, o Através do Espelho.

Não sei se é certo que Carroll consumia algum tipo de drogas, mas a atmosfera fantástica de seus contos remete à loucura de um consumidor entusiasmado de alucinógenos...

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Todos os Homens São Mortais

Simone de Beuvoir foi tudo o que uma mulher esperta sonha em ser na vida: inteligente. E como se não bastasse isso, foi também tudo o que qualquer mulher sonha em ser: linda.  Agora imaginem que vida intensa uma mulher que teve a sorte de ser ao mesmo tempo linda e inteligente viveu. Depois de frequentar uma das maiores universidades do mundo, tornou-se uma das escritoras mais influentes do século XX, antecipou a emancipação feminina, viveu à frente do seu tempo, e teve o respeito dos maiores intelectuais (mesmo os homens) da época. E sem precisar mostrar o peito em alguma revista masculina.

É dela um dos meus 10 livros preferidos, e não é O segundo SexoI e II, o seu mais celebrado ensaio, que trata da condição feminina em sua época (muito antes do feminismo, diga-se de passagem)...Embora seja também uma leitura obrigatória para nós aprendizes...

Todos os Homens são Mortais trata da imortalidade, um tema recorrente, mas nunca antes visto como é tratado por Simone: uma maldição. Imagine ser imortal: ver morrer uma a uma todas as pessoas que você ama ou conhece, e ser obrigado a permanecer no mundo, continuamente, dia após dia, vendo os séculos passarem, os impérios surgirem e caírem, a noite amanhecer e ressurgir no céu, sabendo que um dia nada mais vai restar, nem os bichos, nem as plantas, nem as pessoas: só você... Esse romance nos toca ao ponto da aflição, ao nos mostrar que só somos importantes e especiais por que temos fim... E tudo o mais no mundo...

Conta a história de um conde, que numa crise, decide tomar um elixir e se tornar imortal. Acreditando assim, imortalizar seu poder: que era sua ambição. Mas com o passar dos séculos, o conde descobre que é um ser almadiçoado, quando percebe que a singularidade da vida é justamente seu caráter finito.

Uma leitura que para mim foi bastante reveladora...

terça-feira, 7 de julho de 2009

A Insustentável Leveza do Ser

Quando li esse livro de Milan KUndera pela primeira vez não entendi muita coisa. O que uma adolescente de 14 anos, metida a ler grandes obras literárias pode saber sobre a profundidade do amor, da diversidade dos relacionamentos, da leveza e do peso da vida?

Ah, mas quando fui ler muitos anos depois, me apaixonei por cada um dos personagens, que são tão profundamente destrinchados, e pela constante saída da história para belos diálogos filosóficos, pois foi por causa de Milan Kundera que fiquei interessada por Nietzche e mais ainda por Sartre, de quem já havia lido alguns ensaios graças a minha adorada Simone de Beuvoair (lógico, uma feminista tinha que fazer o caminho contrário...)

Thomas. Primeio a gente odeia a forma descompromissada como ele se relaciona com as mulheres e o valor exagerado que ele dá à liberdade e às suas (muitas) experiências sexuais. Depois percebe-se que o amor dele por Teresa o aprisiona, o despoja de quem ele é, e suas infidelidades são quase uma vingança, ainda que o castigue ainda mais a culpa...

Teresa. As reviravoltas dessa história são sublimes. A moça sensível, sonhadora, que entrega sua vida nas mãos de um desconhecido, e que, apaixonada, suporta estoicamente sua infidelidade... A vítima? Ou a algoz do homem que ama?

Já li muitas vezes, e cada vez que leio descubro algo novo... E da última vez fiquei realmente impressionada com a comparação do amor com a compaixão. Amar nada mais seria que sentir compaixão por outro ser? A necessidade de proteger, a quase dor com o sofrimento alheio, a incapacidade de abandonar alguém à deriva? Além disso, o amor é sempre o tema, que em sua persistente imperfeição faz com que eu me identifique tanto...

sexta-feira, 13 de fevereiro de 2009

As Brumas de Avalon

Outro dia, batendo aqueles papos deliciosos em que lembramos as coisas boas do colégio, com uma amiga daquela época, comentei como estava orgulhosa de ter uma amiga tão jovem, vencedora, bem profissionalmente e ainda por cima fazendo planos ambiciosos, como ir fazer doutorado na Europa.

A amiga em questão me olhou um pouco surpresa, dizendo que eu fui uma boa inspiração para ela, que fui eu quem a estimulou a gostar de estudar e ler, por que eu sempre estava carregando um livro debaixo do braço, e sempre falando com entusiasmo das coisas que aprendíamos na escola.

Tive consciência de que fui uma colegial CDF, argh! Não sei como não usava óculos fundo de garrafa... Mas além disso, lembramos de um livro, ou antes, uma série de quatro volumes, que líamos na escola, e que era uma fissura entre nossa turminha...

As Brumas de Avalon, de Marion Zimmer Bradley.

A lenda do Rei Arthur e dos cavaleiros da távola redonda foi um hit dos anos 80, por que foi contado sob um prisma muito original pela escritora americana, ou seja pelo ponto de vista das mulheres da história. Então, aqui temos a narrativa da bruxa (chamada carinhosamente por Marion de fada) Morgana, a mãe de Arthur, Igraine, a rainha Guinevere (que tem um nome mais exótico na trama)...

Os romanos deixaram na Bretanha medieval uma forte semente, o Cristianismo. Mas a antiga religião dos Celtas e dos Duidas ainda persiste, mantida obstinadamente pelos magos e feiticeiras da Ilha Sagrada, e pela manutenção dos rituais de passagem das estações e das colheitas, pelos gentios. Em meio a essa dualidade, os ataques dos nortistas ameaçam a integridade da Bretanha.

Só um Rei forte e fiel poderia unir os povos para lutarem contra os invasores, e garantir a paz. Esse rei pré-destinado, um jovem louro e destemido, descendente das duas linhagens, nasce, e é educado para ser o Grande Soberano. Com a ajuda do povo antigo e empunhando a mágica espada Excalibur, é entronado.

Obrigado a fazer alianças, Arthur se casa com uma jovem cristã, e funda a Sociedade da Távola redonda, formada por doze cavaleiros. O mais bravo deles é seu primo e melhor amigo, o formoso e puro Galahad.

Conseguirá Arthur manter a promessa de manter os povos unidos, e fazer coexistir as religiões de seu povo?


Conseguirá a maga Morgana trazer seu irmão Arthur para o lado do Povo Antigo?

Conseguirá a rainha Guinevere gerar um herdeiro para o trono e fazer prevalecer o cristianismo, mesmo estando perigosamente apaixonada pelo braço direito do Rei?

Complicadas intrigas, mulheres poderosas, muita magia e guerras épicas fazem dessa história irresistível, até para os crescidinhos. Imaginem então para nós, pirralhinhas da sexta série?

Boa lembrança da minha companheira de colégio, e conta com um dos meus Dez Livros Preferidos, mesmo sendo quatro volumes...





Achei uma crítica muito boa nesse blog, para quem quiser saber mais: As brumas de Avalon, mas o bom mesmo é ler o livro!

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

A Cidade do Sol

Quando li O caçador de Pipas, fiquei realmente encantada. Achei difícil que o escritor afegão Khaled Hosseini pudesse se superar tão rapidamente... Até ler A cidade do Sol e perceber que andava subestimando demais os escritores estreantes... O segundo livro dele é muito mais que encantador, é absolutamente esplêndido.

Como já evidencia seu título original (e eu lamento que os tradutores roubem a essência das histórias com traduções levianas), A Thousand Esplendid Suns, ao pé da letra seria: Milhares de Esplêndidos Sóis. Menos comercial, diria minha amiga Dani, produtora editorial. Mas muito, muito mais verdadeiro.

A história gira em torno da vida de duas mulheres afegãs, muçulmanas, completamente diferentes, que o destino une de uma forma surpreendente, pelo menos para nós, mulheres ocidentais, livres, profissionais, com direitos muito mais amplos. E conta, de uma forma sensível e humana, o sofrimento quase claustrofóbico por que elas passam e como esse sofrimento as aproxima num amor sem limites.

O ponto de vista e o universo feminino estão sempre presentes nesta história, e faz com que, mesmo em realidades tão diferentes, possamos nos identificar com as características de Mariam e Layla: mulheres, esposas, amantes, filhas, mães... A dor, o amor, a delicadeza, a sublime capacidade de resignação, a fé a força inabaláveis, o sacrifício, não é essa a história, o papel e a vida de nós mulheres, desde que o mundo é mundo? As cuidadoras do universo. As mantenedoras da vida.

Antes de tudo, o romance de Hosseini é uma celebração da condição feminina. E depois é a crítica do declínio de uma cultura rica pelas guerras, pela intolerância, pela invasão comunista, pela dominação Talibã (note a passagem que fala dos Budas de Bamyian).

Entrou com mérito para o Hall dos meus dez livros preferidos.

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009

Orgulho e Preconceito

Esse livro eu posso falar que li na adolescência!

Talvez as pessoas o achem chatinho, por que se passa no séc. XVIII... Li a tradução que é muito boa e o original em inglês que é bem mais fácil que a tradução... Mas acho difícil não se interessarem pelos personagens... sobretudo pelo misterioso Mr. Darcy e pela orgulhosa Elizabeth.

A autora Jane Austen, a princesinha da literatura inglesa (quando o livro me caiu às mãos pela primeira vez eu não sabia que ela era assim tão importante), jamais saiu de casa, jamais se casou e provavelmente teve uma vida sem emoções, reclusa às tarefas domésticas. Escrevia para divertir a família, provinciana e da classe baixa. Como ela conseguiu tanta astúcia para fazer críticas sociais tão convincentes e para falar de sentimentos tão profundos e ricos, vai se lá saber... Mas o fez com primor. E tornou-se uma das autoras mais populares da Inglaterra.

O livro fala do alvoroço que um jovem rico causa em uma sociedade rural, ao se instalar numa mansão para passar o verão. Imediatamente as famílias das moças casadoiras ficam em polvorosa! A família Bennet, com cinco filhas, principalmente! No séc. XVIII as moças não tinham muita opção, a não ser se casarem... Os namoros eram bem comportados, restringiam-se a olhares e rodadas de dança nos bailes... A partir daí, a história se desenvolve, vívida e divertida.

Provavelmente Jane Austen criou o estilo mais gostoso do mundo: a comédia romântica. E Orgulho e Preconceito é sua obra prima. Sabe aquelas histórias deliciosas em que o par romântico vive se desencontrando por vários mal entendidos? Pois é... Tem a mãe amorosa e meio tola, o pai sarcástico, as irmãs namoradeiras, um primo absurdo, a cética melhor amiga da mocinha... A mocinha, valente, à frente do seu tempo, que acredita no amor sem interesses e se recusa a viver de conveniência, e o mocinho... galante, bonitão e convenientemente rico!

Em 2005, Orgulho e Preconceito ganhou uma versão adaptada para o cinema, muito bem cuidada, com bela fotografia e atuações competentes. O filme é bem fiel à obra literária... E Kyra Knigthley está uma Elizabeth Bennet adorável!

Leia também:
Razão e Sensibilidade





sábado, 31 de janeiro de 2009

Lucíola

Esse clássico da nossa literatura romântica com certeza é um dos meus dez livros preferidos. De José de Alencar (o mesmo de O Guarani e Iracema), foi publicado pela primeira vez em 1862, e conta o romance do jovem Paulo com Lúcia, a mais bela e cobiçada cortesã do Rio de Janeiro.

A história se passa em meados do século XIX, e não só é uma janela para uma época que eu acho fascinante, como demonstra a organização de uma sociedade hipócrita e puritana.

O enredo em si é muito simples e nem é tão original, uma vez que conversa claramente com a obra de Alexandre Dumas, A Dama das Camélias. O romance de Dumas foi uma mania da época e também inspirou a ópera La Traviatta, de Giuseppe Verdi. É essa ópera que Edward (Richard Gere) leva Vivian (Julia Roberts)para assistir, no filme Uma Linda Mulher, que também conta o romance pós moderno entre um milionário solitário e uma jovem prostituta de Bervely Hills.



As cortesãs são alvo do fascínio desde que o mundo é mundo. No oriente, as gueixas tinham destaque social e passavam por um sofisticado processo de educação, que podia levar anos, o que não incluía absolutamente a satisfação sexual dos parceiros, mas satisfazer um homem em todos os sentidos: no modo de falar, na cultura, no modo de se vestir e caminhar, com música e dança.
Ainda no oriente, temos concubinas, na índia, que eram educadas com os refinados ensinamentos do Kama Sutra, que incluem desde complicadas posições sexuais a segredos de perfumes exóticos e etiqueta. No império romano, os prostíbulos eram quase regiões sagradas, sob a proteção da Deusa Vênus, atacar um prostíbulo durante uma guerra significava ofender a divindade.

No puritano Rio do séc. XIX, as cortesãs tinham um papel social bem definido, eram relativamente aceitas. Elas podiam circular livremente nos salões e teatros para enfeitá-los com sua beleza, mas se decidissem se casar com um rapaz honesto, isto era visto como um escândalo.

José de Alencar praticamente tece, com delicados floreios de literatura, a história doce e apaixonante de Paulo e Lúcia. A heroína romântica é típica: "a verdadeira imagem da mulher que no abismo da perdição conserva a pureza d´alma". Mesmo capaz dos mais altos sacrifícios por seu amor, a personalidade de Lúcia não é nada reverente. Ela é forte e apaixonada, e encontra em Paulo a chance de resgatar sua vida. Paulo, no início duvida de sua amada, julgando que uma prostituta seja incapaz de abandonar a vida de dissipações por seu amor, mas recebe de Lúcia as maiores lições de dignidade.

Lucíola é uma história de amor atemporal, não mais que isso. Mas carregada de belas metáforas, delicadíssima e é uma leitura tão fácil e tão agradável, que é impossível não se apaixonar por ela...

sexta-feira, 30 de janeiro de 2009

Cem anos de solidão

Quando propus a minha amiga Dani que falássemos, em nossos respectivos blogs sobre nossos 10 livros preferidos, não imaginei que fosse uma tarefa tão difícil! Sou uma leitora voraz, mesmo por que não consigo dormir sem antes cansar a vista com algumas páginas. E 365 noites por ano exigem muitos livros disponíveis. Com essa conta, dá para imaginar quantos livros eu adoro no mundo, e escolher apenas 10 pode parecer uma grande injustiça. Já imagino uns outros 50 gritando, magoados, na minha cabeça, por terem sido preteridos.

Mas injustiça seja feita, preciso cumprir com o combinado.

A Dani falou muito ternamente de um livro da sua infância... Os livros da minha infância são com certeza deliciosos, mas para não copiar, vou falar de outro livro hoje, um que me impressionou a ponto de ser lido e relido. E cada vez que leio, acho algo novo, diferente, que não havia percebido na leitura anterior.

Hoje vou falar de Cem Anos de Solidão, de Gabriel García Marques.

O romance narra a história de uma cidade mítica e da numerosa descendência de seu fundador, durante cem anos. Foi lançado em 1967 e é tido como uma das obras primas da literatura latino-americana. É feito da matéria que faz qualquer livro inesquecível, senão absolutamente necessário: fantasia, loucura, sofrimento, realismo, crueldade, paixões à flor da pele.

Rendeu ao seu autor fama de celebridade mundial e um Prêmio Nobel da Literatura.

Sou louca por tudo que esse colombiano escreve, por dois motivos: a literatura dele é luxuosa, e ele fala de coisas extremamente simples, sentimentos comuns, de uma forma nada cotidiana. E é preciso mesmo ter uma mente tão ampla e tão brilhante para escrever histórias de amor, de sofrimento, encontros e desencontros, temas desconcertantes como incesto e loucura, de uma forma tão poética, tão bela.

Cem anos de Solidão é dessas histórias que vamos devorando página por página, e quando terminamos, pousamos o livro no peito, olhando embasbacados para frente, e dando um longo suspiro, de pura perplexidade...

Leia também:
Do amor e outros Demônios
O amor nos tempos do Cólera
Memória de Minhas Putas Tristes