segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Amadurecer para Amar

Vivemos ainda sob os ecos do Romantismo, um movimento detonado aproximadamente no fim do séc. XVIII, e que foi o alicerce da sociedade moderna e da mentalidade que prega a valorização do eu. Para mim, esse movimento vive na atualidade o seu apogeu, pois nunca, em nenhuma época, a humanidade se voltou tanto para o individualismo, nunca o homem valorizou tanto suas próprias conquistas e suas necessidades.


Eu é a palavra de ordem da sociedade contemporânea e tudo está baseado nela. O que eu quero, o que eu tenho, o que eu posso. Auto-conhecimento, Identidade, Satisfação Pessoal são somente algumas das expressões super divulgadas pela mídia para nos atrair, pois tudo o que tem a ver com o prazer pessoal chama a atenção e é vendável.

E o outro? O outro é somente uma peça na engrenagem da auto-satisfação, e só tem utilidade enquanto nos identificamos com ele. É por isso que os relacionamentos estão ficando progressivamente insuportáveis. Tolerância e aceitação estão cada vez mais fora de cena, o que importa mesmo nas pessoas é que elas se pareçam com a gente e nos satisfaçam nas nossas expectativas. Quando isso não ocorre, o rompimento é inevitável. É fácil e quase imperativo desistir de alguém que não “combina” com a gente. Como se as pessoas fossem sapatos e meias feitas para se casarem, e não seres únicos e com características originais e inimitáveis.

Com tudo isso, o conceito do amor, tão lindo sob a ética romântica, ficou inalcansável e contraditório. Ainda hoje, pleno séc. XXI, as pessoas usam o amor como mais um ítem da sua satisfação pessoal, e ainda acreditam que ele é algo que se encontra, não algo que se constrói. Assim, seguimos acreditando que para amar alguém, basta que essa pessoa nos apareça como num conto de fadas, com todas as perfeições criadas na nossa mente fértil para nos coroar de felicidade. A contradição é que, ou as pessoas se decepcionam em seus amores, ou elas nunca os encontram, e culpam tudo, menos a elas mesmas e seus ideais absurdos.

É fato que a teoria da atração ainda está ligada à aparência. O amor romântico venera a aparência, e seus reflexos na arte reafirmam isso. Beleza e amor quase necessariamente estão vinculados. Mas é fácil perceber que o amor não se encaixa num conceito material. É impossível manter a estética do amor quando o caráter (que é onde se fixam todas as nossas afeições duradouras) não corresponde à aparência. Podemos ser atraídos pela aparência, mas dificilmente ficamos ligados a um caráter medíocre, a uma inteligência inferior, pois isso se torna incômodo. Mas essa percepção só é possível após o amadurecimento.

Quando crescemos, adquirimos bagagem para avaliar os outros de forma mais segura e completa. Artificialismos raramente nos enganam quando somos maduros emocionalmente. E essa maturidade é construída com base em vivência, em decepções, em superação, e não raramente, com humilhação dos nossos superalimentados egos. Amar se torna uma escolha, uma decisão, uma consequência do crescimento interior, e descobrimos que o amor não se encontra.

O amor só é possível quando somos capazes de desvincular nossos anseios românticos e usar a razão para apoiar os motivos pelos quais escolhemos alguém. É a razão que nos faz admirar uma inteligência e um caráter. É ela que avalia atitudes e julga falhas. No fim, sabemos que não é possível amar um corpo, assim como é impossível desejar uma idéia.

Os casais mais improváveis que eu conheço são também os mais felizes. Eles não tiveram encontros de fábulas, não lutaram contra monstros marinhos, não se apaixonaram à primeira vista. Eles começaram construindo um cotidiano, uma amizade, um caminho em comum, dividindo trabalhos chatos ou se uniram em momentos difíceis, em que precisaram se apoiar. E aqueles impulsivos unidos pelo cupido duraram apenas até o primeiro bocejo da relação.

O amor é a idéia. E só pode satisfazer uma vida quando colocamos o amor no plano que ele realmente merece, onde pode se avaliado e considerado importante, ou seja, o plano da razão. Amar com a cabeça, e não com o coração, é o desafio da nossa era.

Um comentário:

César Pinheiro disse...

Oi, td bem?

E aí, qdo vc vai voltar a escrever no blog? O pessoal tá ansioso esperando as postagens de 2012!