terça-feira, 17 de abril de 2012

Para gostar de Funk...

Se você é do tipo que torce o nariz e fica arrepiado quando aquela batida rítmica e uma letra cheia de obscenidades alcança as profundezas do seu asséptico lar pequeno burguês, se “apologia ao crime, às drogas e à perversão”, sem falar de sofríveis erros de concordância vem a sua mente ao ouvir a menção ao Funk Carioca, é possível que sua antipatia seja a resposta natural à provocação a que o Funk Carioca submete as pessoas. Mas pode ser também que haja aí uma dose, de que proporção só você poderia me dizer,  de preconceito.

Bom, eu gosto de Funk Carioca. Percebo que dizer isso em alguns meios intelectualizados é extremamente temerário: vejo desde caras de nojinho à expressões deliberadas de reprovação. Bom, bastaria argumentar que “gosto não se discute”, “o problema é meu” e “ninguém tem nada com isso”. Mas não acho que a vida funcione dessa forma. Existem delicadezas de sentimento próprias aos caracteres mais sensíveis que nos obrigam a dar um mínimo de justificativa à sociedade das nossas escolhas, assim como fazer crescer aos olhos dos outros o valor delas. É por isso mesmo que resolvi intelectualizar o Funk, juntamente com meu amigo Enrico Marques, um outro admirador do movimento.

A primeira etapa para gostar de Funk é ser capaz de dançar. Para essa condição você tem que ter nascido com um gen especial, que te possibilita se mexer numa pista de dança de forma arrebatadora. As pessoas tem que gostar de olhar para você quando você está se movimentando. Se você pode dançar, já é um passo dado. Por que quando toca Funk, ficar parado não é uma opção.

Também  vale lembrar que resistir ao Funk não adianta de nada. O Funk Carioca já desceu o morro há tempos, conquistou a mídia, caiu nas graças da juventude elitizada que elegeu o ritmo nas baladas e, antes que você possa protestar, já conquistou o mundo. É tocado nas mais badaladas casas noturnas do globo, em Amsterdã, Londres, Saint Tropez, coisa que qualquer mochileiro meia boca já sabe. Ganha versões em outras línguas e emplaca hit de artistas de primeira grandeza. E aposto que, quanto toca no casamento de alguém da sua família, faz todo mundo que tomou meia taça de espumante rebolar até o chão, mesmo em seus trajes passeio completo... 

Então, vamos esclarecer uma coisa: seu horror a funk não vem do fato do seu vizinho estremecer os auto falantes do carro com essas músicas de periferia (imagina ele ouvindo Mendelsson no mesmo volume, ou Beethoven às seis da matina no metrô: faria você odiar até Marisa Monte, o clichê de quem quer imprimir aparência de ouvinte de bom tom, ou Beatles, a única unanimidade da música universal). Seu horror a Funk vem do fato de você temer coisas que não conhece, e não considerar que existe toda uma classe social marginalizada, levada à extremos de violência  e repressão vivendo nas comunidades e nas favelas, pessoas sem sua elegância e sem sua cultura, e que hoje, graças a um presidente corajoso vindo das massas e de programas sociais de primeiro mundo passaram  a 1) ter poder de consumo  2) ter espaço da mídia  3) frequentar universidades  4) acreditar e a exigir seus direitos como seres humanos – exatamente como você.

O fato é que a criatividade do povo brasileiro criou mais um ritmo original de MPB, mesmo que você prefira quando o funk era feito por bandas como Red Hot Chilli Peppers e Faith no More. Pode ter se originado da música negra americana, mas após algumas décadas de salada e de absorver inúmeras influências, o funk assumiu características originais quando passou a ser adaptado para o gosto e para a realidade das comunidades, a se incorporar à música eletrônica a receber influências de outros ritmos e estilos populares, como o forró, o samba rock, o axé. O Funk fala de uma realidade muito particular e singular, e fala de violência, da superexploração da sexualidade, da malandragem do brasileiro, por que essa realidade existe de fato e é assim que aquelas pessoas vivem.

O Funk Carioca fez sua história. E influencia a música brasileira como um todo. Basta lembrar a boa surpresa, em 1997, quando a Viradouro incorporou a “paradinha” do funk à bateria da escola de samba e fez a audiência ir ao delírio no carnaval. Desde que todo artista de vanguarda e peso faz uma versão de alguma música e toca em seus shows (Caetano, Gadú, Calcanhoto).

O que eu não acho justo é que você negue a deliciosa vontade de dançar quanto ouve o refrão “dança da motinha, dança da motinha”. Ou que não se derreta com as melodias sensíveis e as letras absolutamente arrebatadoras de“Nosso Sonho”, ou “Fico assim sem você” obras primas do Funk melody, da extinta dupla Claudinho e Buchecha. Muito menos ignorar o chamado à reflexão, o discurso social e o urgentíssimo brado de paz invocado por “eu só quero é ser feliz, andar traquilamente na favela onde eu nasci” e “era só mais um Silva a que a estrela não brilha, ele era funkeiro mas era pai de família...”. Ou então, acho quase um sacrilégio você não reconhecer a importância da autoestima feminina, cantada por Valeska da Gaiola, Tati Quebra Barraco, e tantas outras, brados que incitam a mulher a jamais se submeter... “minha buceta tem poder” pode ser um refrão chulo nas cabecinhas mais hipócritas,  mas dizer a uma mulher que sofre violência diária, que não tem consciência do valor do seu corpo, que coloca um filho após o outro no mundo, que aceita um subemprego para alimentar não sei quantas bocas sozinha, pra mim, dizer a essa mulher o poder que existe em ser mulher é algo que uma funkeira faz para merecer meu respeito.

Na boate do playboy o funk carioca se torna uma ferramenta de alienação. O playboy dança funk para encher a cara, para ficar maluco e fazer racha com seu carrão. O malandro gosta de funk que incita a violência e desqualifica a mulher, por que isso o faz sentir-se mais machão. As cachorras gostam de mostrar que tem os mesmos direitos (inclusive ao desejo e ao sexo casual) que os homens. Alguns usam o funk para protestar. O crime organizado adotou o funk como hino de guerra. Para tudo isso o Funk serve. Isso é o que acontece com todo movimento cultural. A máfia americana ouvia jazz e praticava crimes. Não é culpa do jazz. Por que seria culpa do Funk? O Funk é mais que o brado” Uh, CV, a máfia aê!” Ele muda conforme o contexto, nada novo.

O que pode ser novo é o nosso olhar, é a nossa perspectiva. Valorizar o Funk pode ser algo muito mais profundo do que gostar/não gostar, consumir/não consumir, submeter a críticas vazias. Existem muitas coisas das quais não gostamos e com as quais não nos identificamos. Mas que, no entanto, são importantes para outras discussões das quais não fazemos parte.

Os verdadeiros artistas, aqueles que entendem, conhecem e extrapolam  a arte comum, que sabem a importância cultural do seu talento e sua responsabilidade na construção de uma arte inclusiva, sabem fazer isso muito bem. É por isso que Caetano canta o refrão “só um tapinha não dói”. Um pouquinho de funk não dói...
"É funk mas é cultura. Toda forma de não cultura é opressão". Autor-li-isso-na-net.

2 comentários:

Mari Mi disse...

Interessante o teu texto. Sim funk é cultura, culinaria é cultura, lingua é cultura, religião também é cultura...enfim....a palavra cultura tem uma dimensão muito larga. "A buceta tem poder" que otimo! Entendo que seja um grito de protesto, ainda mais vindo de uma mulher que não se veste mostrando o utero. Mas qual é a razão das mocinhas do funk vestirem-se de forma tão elegante, mostrando até o utero e quando é a vez do homem cantar, este não precisa mostrar seu pau incrìvel, nem sua bunda maravilhosamente enorme? Você não acha que ha uma disparidade ai? Por que a mulher é altamente sexualizada e o homem não? Por que a mulher que gosta de sexo é puta, a novinha, a cachorra etc etc? Por que o homem não recebe nomes pejorativos? Você não acha que certos funks continuam pregando o machismo nosso de cada dia, onde a mulher que da pra quem quer e que se exibe é a putona e o homem que transa com varias é o garanhão cobiçado? (vide Mr Catra). Sim, não moro na favela, ainda bem que tive oportunidades na vida de morar em casas mais dignas, com saneamento basico, esse tipo de coisa que deveriamos todos ter! Mas enfim...tudo isso para lhe perguntar, o funk não é machista com as suas novinhas, cachorras etc etc?

Fernanda Fiuza disse...

Olá Mari. Obrigada por fomentar a discussão. As questões que você levanta são muito pertinentes e muito profundas. Por que o funk é um movimento essencialmente machista? Por que estamos num país machista. E o quanto mais ignorante e miserável um povo, mais meios de dominação entre gêneros e classes sociais são criados e difundidos. Uma realidade só combatível por meio da educação. E sabemos que educação não é o bem mais acessível de nossa sociedade. Daí que o homem que gosta de sexo é macho e a mulher que gosta de sexo é puta. Mas veja, o funk exalta a “cachorra” como o ideal de mulher. Todo funkeiro quer ter sua “cachorra”. O funk aceita que a mulher seja sexualizada. Isso é uma conquista feminina muito importante. Mas para falar mais disso teríamos que nos enveredar pela história, pela sociologia, pela antropologia... e o assunto não tem fim!
Bem, o funk veio do morro, assim como o samba. Sabemos que os sambas também tem muitas letras que exploram essa realidade machista, de prevalência masculina, de dominação. De forma mais lírica, sim, mas ainda está lá.
Outra questão sua é sobre a superexposição do corpo feminino, que me pareceu, pelo seu comentário, algo degradante. Eu acho muito normal no país do fio dental, do BBB e das mulatas do carnaval, essa superexposição existir. Que brasileira não nasceu e cresceu sob a égide da sensualidade? Qual de nós não usa e abusa dos privilegiados atributos físicos que herdamos dos nossos parentes negros?
E por último, você menciona o Mr. Cartra. É dele a frase: A culpa da frustração feminina é achar que todo mundo que tem um membro entre as pernas é homem. Com todo respeito, nem todo homem merece esse título. – Ou seja, esse cara não pode ser machista.
Um grande beijo.
Nanda